Em 2025, a receita bruta total do jogo online em Portugal alcançou €1,23 mil milhões. Em 2020, este valor era uma fração do que é hoje. O crescimento de 175% em receita bruta entre 2020 e 2025 é um dos crescimentos mais rápidos de qualquer sector da economia portuguesa neste período — e aconteceu inteiramente dentro do mercado regulado, com dados transparentes publicados trimestralmente pelo SRIJ.
Trabalho com estas estatísticas há anos, e o que me continua a surpreender é que a maioria dos sites de apostas em Portugal ignora completamente estes dados. Falam de “crescimento do mercado” sem citar um único número. Descrevem o “apostador português” sem referenciar um único dado demográfico. Este artigo é diferente: são os números reais, com as fontes, para quem quer perceber onde está o mercado e para onde vai.
A evolução da receita bruta: de 2020 a 2025
A trajetória de crescimento do mercado português de jogo online é linear e consistente. O crescimento de 175% em receita bruta entre 2020 e 2025 não é um pico — é uma tendência sustentada que atravessou a pandemia, a abertura do mercado a novos operadores, e as flutuações do calendário desportivo.
Os marcos mais relevantes nesta evolução: em 2024, o mercado registou o maior volume de apostas desportivas online de sempre — €2.053,2 milhões no total do ano. O quarto trimestre de 2024 foi o melhor trimestre da história do mercado, com receita bruta de €323 milhões, representando um crescimento de 42,1% face ao mesmo período de 2023. O primeiro trimestre de 2025 mostrou alguma desaceleração — um recuo de 4% no IEJO — mas os trimestres seguintes recuperaram o ritmo.
Nos primeiros nove meses de 2025, a receita bruta total atingiu €869 milhões, com os jogadores a apostar cerca de €16,7 mil milhões — crescimento de 10,2% face a igual período de 2024. O SRIJ descreveu esta evolução como reflexo de um “amadurecimento do mercado” — um crescimento mais moderado mas mais estável do que nos anos de expansão inicial.
O volume de apostas desportivas em detalhe
O volume de apostas desportivas — o total de dinheiro apostado, não a receita bruta dos operadores — cresceu de forma ainda mais acentuada. Em 2021, o volume foi de €1.402,9 milhões; em 2022, €1.482,1 milhões; em 2023, €1.721,6 milhões; em 2024, €2.053,2 milhões. Uma progressão consistente de crescimento anual de 10 a 20%.
No terceiro trimestre de 2025, o volume de apostas desportivas atingiu €504,6 milhões — o valor mais elevado de um único trimestre nesse ano. O volume acumulado dos primeiros três trimestres de 2025 foi de €1.463,8 milhões, colocando o ano na trajetória de superar os €2 mil milhões anuais novamente.
A distinção entre volume e receita bruta é importante para perceber a saúde do mercado. A receita bruta dos operadores é o volume menos os pagamentos a vencedores — ou seja, a “margem” total do mercado. Quando o volume cresce mais depressa do que a receita, pode significar que as odds estão a ficar mais competitivas (margens menores por euro apostado). Quando a receita cresce mais depressa do que o volume, pode indicar menos apostadores a ganhar.
O perfil do apostador português: quem aposta em Portugal
Em 2025, as contas registadas nas plataformas licenciadas chegaram a 4,72 milhões, com cerca de 4,94 milhões de registos totais no terceiro trimestre. Destes, 1,23 milhão apostou pelo menos uma vez no quarto trimestre de 2024 — um crescimento de cerca de 12% face ao fim de 2023.
O perfil demográfico tem algumas características muito claras. 85% dos apostadores ativos são do sexo masculino em 2025 — uma queda face aos 92% de 2022, refletindo uma penetração crescente do produto feminino. 32,5% têm entre 18 e 24 anos; 29,8% entre 25 e 34 anos. Mais de 60% da atividade é dominada por públicos jovens abaixo dos 35 anos.
Geograficamente, o Porto lidera com 21,2% dos apostadores, seguido de Lisboa com 20,7%. A concentração no litoral reflete tanto a densidade populacional como a maior penetração de smartphone e internet nestas regiões. Este dado tem implicações para os operadores: o “apostador português” é, em termos estatísticos, um homem jovem do Porto ou de Lisboa a apostar pelo telemóvel.
O que estes dados dizem sobre o futuro do mercado
O próprio presidente da APAJO descreveu o momento atual como de “desaceleração de crescimento no mercado que se justifica pelo amadurecimento do mesmo”. É uma leitura que faz sentido: mercados que cresceram 175% em cinco anos naturalmente abrandam quando atingem escala. A questão não é se o mercado vai crescer — vai, mas de forma mais moderada — é quem vai crescer dentro dele.
Os dados apontam para dois vectores de crescimento futuro: a participação feminina (ainda subrepresentada mas a crescer consistentemente) e a expansão para faixas etárias mais velhas (a penetração de smartphone nos 45-65 anos continua a subir). A base jovem está consolidada; o crescimento marginal vai vir de perfis ainda não bem servidos pelo produto atual.
As perspetivas para o mercado em 2026 e além
O crescimento de 175% entre 2020 e 2025 não se vai repetir nos próximos cinco anos — isto é consensual no sector. O mercado está a amadurecer, a base de utilizadores está consolidada, e o crescimento futuro virá de penetração mais profunda em segmentos ainda subrepresentados (mulheres, faixas etárias mais velhas) e da expansão da oferta de produto (eSports, novas modalidades, funcionalidades premium).
O que vai continuar a crescer é a sofisticação do produto. As plataformas estão a investir em personalização, apostas ao vivo mais ricas, integração de dados estatísticos, e funcionalidades que aumentam o tempo de envolvimento do utilizador. A batalha competitiva entre operadores, que nos primeiros anos se jogou em bónus de boas-vindas, vai jogar-se cada vez mais na qualidade do produto de dia-a-dia.
O mercado de apostas em Portugal vai continuar a evoluir, e os apostadores informados — que percebem como funcionam as odds, os mercados, os bónus e as ferramentas de proteção — estão sempre melhor posicionados do que os que apostam por intuição. Esta é a premissa de toda a análise que fazemos no OddsPT.
