Um dado que não consigo deixar de citar quando falo sobre este tema: 32,5% dos jogadores ativos nas plataformas de apostas online em Portugal em 2025 tinham entre 18 e 24 anos. Um em cada três apostadores ativos é jovem adulto. E entre 2023 e 2024, cerca de 31% dos novos registos nas plataformas de jogo online foram na faixa dos 18 aos 24 anos. São números que merecem atenção e reflexão — não como pânico moral, mas como dado factual sobre quem aposta em Portugal e o que isso implica.
Tenho acompanhado este mercado há nove anos, e o que vejo nestes dados não é simplesmente “os jovens apostam mais”. O que vejo é que os jovens adultos entraram no mercado legal de apostas mais cedo do que gerações anteriores, numa fase de vida em que a gestão de risco financeiro e o autocontrolo ainda estão em desenvolvimento — e numa era em que a fricção de acesso é zero: smartphone, MB Way, e a aposta está feita em 30 segundos.
Os dados demográficos dos apostadores jovens em Portugal
32,5% dos jogadores ativos em 2025 tinham entre 18 e 24 anos. A faixa seguinte — 25 a 34 anos — representava 29,8%. Juntas, estas duas faixas etárias dominam mais de 60% da atividade de apostas online em Portugal. Cerca de 78% dos jogadores registados no final de 2024 tinham menos de 45 anos.
A dimensão geográfica é relevante: Porto e Lisboa lideram em número de apostadores, com 21,2% e 20,7% respectivamente. O eixo litoral urbano concentra a maior parte da atividade, o que é coerente com a penetração de internet e smartphone nessas áreas. Para os jovens, que cresceram em ambientes digitais nas grandes cidades, as apostas online são um produto tão acessível quanto qualquer outra app.
Em termos de género, a participação feminina tem crescido: em 2025, 85% dos apostadores eram do sexo masculino, versus 92% em 2022. A mudança é lenta mas consistente, e reflete uma normalização do produto de apostas entre um público mais diverso.
Os sinais de alerta do jogo problemático em jovens
Há uma realidade que o director do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ) descreveu de forma perturbadoramente concreta: “Temos muitos jovens com 18, 19 anos, com problemas gravíssimos de jogo. E isso quer dizer que não começaram e não ficaram adictos num dia. Normalmente, têm um percurso, que por vezes pode ser muito rápido, mas mesmo quando é muito rápido, é seis meses, um ano, ano e meio.”
O que torna os jovens adultos particularmente vulneráveis ao jogo problemático é uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente. A impulsividade é estruturalmente mais alta nos jovens adultos do que em adultos mais velhos — não por fraqueza de caráter, mas por razões neurológicas ligadas ao desenvolvimento do córtex pré-frontal. A tendência para procurar recompensas imediatas é biologicamente mais forte nesta fase da vida.
A isto somam-se a exposição contínua a marketing de apostas (patrocínios desportivos, influenciadores, publicidade digital), a pressão social de grupos onde apostar é uma atividade partilhada, e a facilidade técnica de acesso que elimina qualquer fricção que pudesse funcionar como travão natural.
Os sinais de alerta que merecem atenção — tanto para jovens como para quem os rodeia — incluem: apostar com dinheiro necessário para outros fins, mentir sobre o valor ou frequência das apostas, tentar recuperar perdas com apostas maiores, perda de interesse em atividades anteriormente valorizadas, e ansiedade ou irritabilidade quando não é possível apostar. Nenhum destes sinais em isolamento é definitivo, mas a combinação de vários requer atenção.
Os recursos de apoio para jovens em Portugal
O Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ) é a principal entidade de apoio a pessoas com problemas relacionados com o jogo em Portugal, incluindo jovens. O IAJ oferece acompanhamento psicológico gratuito, linha de apoio, e programas específicos para diferentes perfis de jogadores problemáticos.
O IAJ tem também trabalhado na linha de prevenção — sensibilização em escolas e universidades sobre os riscos do jogo, incluindo a dimensão de como as apostas online são desenhadas para maximizar o envolvimento. Conhecer os mecanismos de design dos produtos — as odds melhoradas, as notificações push, as promoções de reactivação — não imuniza ninguém, mas aumenta a consciência sobre o que está a acontecer quando uma plataforma tenta captar atenção.
Uma nota importante que o próprio IAJ sublinha: os jovens que chegam ao instituto com problemas graves frequentemente não começaram nas plataformas licenciadas — “temos jovens que começaram a jogar com o cartão de cidadão do irmão mais velho”. O mercado ilegal tem uma presença forte neste segmento etário, precisamente porque as verificações de idade nas plataformas ilegais são inexistentes. Esta é uma das razões mais concretas pelas quais o fortalecimento do mercado legal e regulado tem implicações directas na proteção dos jovens.
O papel das plataformas e da regulação na proteção dos jovens
Os operadores licenciados em Portugal têm obrigações concretas no que diz respeito à proteção de menores e à prevenção do jogo problemático em jovens. A verificação de idade no momento do registo é obrigatória e inclui validação por documento de identificação. As comunicações de marketing são proibidas para menores. E os mecanismos de jogo responsável — limites de depósito, autoexclusão, ferramentas de auto-avaliação — são obrigatórios e têm de estar acessíveis.
O problema, como o IAJ sublinha com clareza, é que estas proteções são mais eficazes no mercado legal do que no ilegal. Um jovem de 17 anos que regista conta com documentos de outrém numa plataforma ilegal não tem nenhuma destas proteções. O fortalecimento do mercado regulado e a redução do mercado ilegal são, neste sentido, também uma questão de proteção dos mais vulneráveis.
A questão da publicidade é outro aspeto em discussão. Portugal tem restrições sobre a publicidade de apostas, mas a exposição de jovens ao marketing de apostas via redes sociais, patrocínios de equipas e transmissões desportivas continua a ser intensa. A consciência sobre esta exposição — e a capacidade de a reconhecer como o que é, marketing desenhado para captar atenção — é uma ferramenta de literacia financeira que devia fazer parte da educação básica.
